25/09/06


não vou a tempo para te dizer.
Ou até só para falar, como tantas vezes, apenas com o olhar.
Aprendi contigo a falar com os olhos.
Aprendi contigo que a honestidade é a maior das virtudes. A ser honesto comigo e que esse é o ponto de partida para o resto da vida.
Ensinaste-me a fazer tudo como se alguém me contemplasse, com valor e firmeza. A ser humilde mas valente.
Disseste-me naquele teu sussurrar de dedo apontado, que sempre tinhas sido namorado e que Eu também o podia ser toda a vida. Vi o que era amar.
Falavas com paixão de quem realmente gostavas, com esses grandes olhos a tremer e brilhantes, quase a verterem uma lágrima.
Aprendi contigo o peso das palavras.
Contavas-me histórias de um miúdo pequeno e descalço, num barco mundo fora e das caçadas por terras, e Eu, encolhia os ombros. E pacientemente recordavas-me o quanto Eu era novo.
No Verão, esperavamos ansiosos pela hora combinada e sem faltar, lá vinhas no teu passo apressado a sacudir as moedas dos bolsos, já prontas para os nossos gelados.
E no Inverno, os dias da Bola.
O pão quente para o lanche.
Lavar o carro ao Domingo.
Tanta coisa que vou sempre recordar.
Sei que te orgulhavas de mim. É um privilégio viver com isso.


Obrigado.




Dá, se puderes; se não puderes, sê afável.” ... assim era Tu.

Custou-me ver que, afinal, não tinhas grandes olhos.


Ao meu Avô.
1916-2006

1 Comentários:

Blogger ZeoX disse...

A lembrança de quem parte nem sempre tem que ser triste.

Pode deixar uma lágrima no olho de felicidade. Ser sincera. Ser bela. Emocionalmente magnífica.

Como esta.

Abraço.

1:20 da manhã  

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