04/06/05

Excerto de uma entrevista de António Lobo Antunes à Visão

Visão: Ainda sonha com a guerra?
António Lobo Antunes: Às vezes tenho um pesadelo tremendo. Sonho que me estão a chamar para voltar para a guerra em África. Tento explicar que já fui, argumentam que tenho que ir. E o sonho acaba aqui.
Nunca sonhei com tiros ou com morteiradas. No meio daquilo tudo havia muito humor. Havia um homem, Bichezas, que cuidava do morteiro que estava ao pé da messe. Tínhamos mais medo dele do que do MPLA porque o Bichezas disparava com o morteiro na vertical. Aquilo subia... e toda a gente fugia. Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo, havia coisas extraordinárias.
Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
V: Não vou pôr isso na entrevista...
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?"


Excerto da entrevista António Lobo Antunes íntimo, in Visão 560

1 Comentários:

Blogger ZeoX disse...

Se os militares envolvidos fossem todos Benfiquistas, nem teria havido Guerra do Ultramar :]

7:53 da tarde  

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