25/12/05

Aprender

Erro e odeio para depois aprender e amar. Demos valor às grandes quedas que nos marcaram para que agora nos sintamos pessoas melhores.


"Não há um caminho para chegar à luz além do da escuridão. A única forma de temperar uma alma é através do sofrimento e da dor. Não há forma de evitar este sofrimento ao ser humano. Também não é possível dar-lhe lições por escrito. A alma humana é muito néscia e não percebe enquanto não viver as experiências na sua própria carne. Só quando processa os conhecimentos dentro do corpo é que os pode adquirir. Não há conhecimento que não tenha chegado ao cérebro sem passar pelos órgãos dos sentidos. Antes de saber que era mau comer o fruto proibido, o homem teve de perceber o poder do seu aroma, sofrer o desejo, saborear o prazer da dentada, estremecer com o som da casca arrancada, receber o pedaço dentro da boca, conhecer as suas redondezas, os seus sucos, a suave textura que lhe acariciava o esófago, o estômago, os intestinos. Quando Adão comeu a maçã, a sua mente abriu-se a novos conhecimentos. Quando os seus intestinos a digeriram, o seu cérebro chegou à compreensão de que andava nu no Paraíso. E quando sofreu as consequências de ter adquirido a sabedoria dos Deuses que o haviam criado, soube do seu engano. Nunca teria sido suficiente dizer-lhe que não podia comer da Árvore do Bem e do Mal. Não há forma de os seres humanos aceitarem um raciocínio a priori. Têm de vivê-lo plenamente. E quem lhes proporciona essas experiências? Os Anjos-da-Guarda? Não, senhor, nós, os Demónios. Graças ao nosso trabalho o homem sofre. Graças às provas que lhes pomos ele pode evoluir. (...) A letra com sangue entra, e alguém tem de dar o golpe. O que seria da corda de um piano se ninguém batesse na tecla? Nunca conheceríamos o belo som que ela pode produzir. Às vezes há que violentar a matéria para que se apresente a sua formusura. É à base de golpes de cinzel que um pedaço de mármore se converte numa obra-prima. Há que saber bater sem piedade, sem remorsos, sem medo de deitar fora os pedaços de pedra que impedem que a peça mostre o seu esplendor. Saber produzir uma obra de arte é saber tirar o que estorva. A criação utiliza o mesmo processo. No ventre materno, as próprias células sabem pôr-se de lado, suicidam-se para que outras existam. Para que o lábio superior se possa separar do lábio inferior, tiveram de morrer as milhares de células que os uniam. Se não fosse assim, como poderia o homem falar, cantar, comer, beijar, suspirar de amor? Infelizmente, a alma não tem a mesma sabedoria que as células. É um diamante em bruto que, para ficar polido, precisa das pancadas que o sofrimento proporciona.
(...)
Para que uma pessoa aprenda o valor que têm as pernas, é necessário que alguém lhas corte. Para que alguém saiba o valor do consolo, tem de precisar dele. Para que alguém dê valor ao apoio e aos beijos da mãe, precisa de estar doente. Para que alguém saiba o que é a humilhação, tem de ser humilhado. Para que alguém saiba o que é o abandono, tem de ser abandonado. Para que alguém dê valor à solidariedade, precisa de cair em desgraça. Para que alguém saiba que o fogo queima, tem de ser queimado. Para que alguém aprenda a dar valor à ordem, tem de sentir os efeitos do caos. Para que o homem dê valor à vida no Universo, primeiro tem de aprender a destruí-la. Para que o homem recupere o Paraíso, primeiro tem de recuperar o Inferno e, sobretudo, amá-lo. Pois só amando o que se odeia se evolui. Só se chega a Deus através dos demónios."

Laura Esquivel in A lei do Amor

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