13/09/07

Desculpe, importa-se de repetir?

Parece-me essencial que alguém tome uma qualquer medida e avance com um estudo detalhado do Português.
Do Português como casta.
Um estudo que inclua o classificar um exemplar num frasco de álcool, para ser esquartejado, autopsiado, analisado e se calhar embalsamado.

@Somos um “case study”.

Não deve haver nenhum povo no mundo que sustente e devore mais novelas que nós.
Senão, repare-se no caso de Maddie.
Faz lembrar a primeira série do Big Brother. Não é que quisesse saber o que por lá se passava, mas como não se falava de outra coisa, faziam questão de me manter informado. A semelhança com este caso, é que não se fala de outra coisa.
O interesse é, obviamente, maior que no caso do Big Brother.
Quando a miúda desapareceu, o bom do português, partiu porquinhos-mealheiros, roubou arrumadores, bebeu menos vinho e comprou menos velas em Fátima, para ajudar os desgraçados dos McCann que tinham ficado sem a filhinha. Vai daí, toca a mandar dinheiro para um mega-fundo milionário, apesar de ser clarinho como a água, que os McCann sofriam de várias coisas, menos de dificuldades financeiras.
Aliás, no que toca a dar dinheiro aos desgraçados, o Português é o primeiro a colocar o dedo no ar.
É verdade. Gostamos de ver coitados. @É antagónico, dá-nos pena, mas batemos palmas por sabermos que há piores que nós e lá respiramos de alivio: - “Ufa, ainda bem que não é comigo”.

Voltando aos McCann.

Arrastava-se o casal em entrevistas por tudo que é comunicação social.

- Coitada. O sofrimento daquela mulher. Até está mais magra. E olha o ursinho da bebé. ERA APANHA-LOS A TODOS E CORTAREM-LHES A PILA.
- A menina já está morta, valha-me Nossa Senhora.
- Não digas isso. Uma vez ninguém sabia da sobrinha da Soraia, já todos a davam como morta e a miúda lá apareceu 4 dias depois. Tinha ido a um baile.


@O Português tem sempre uma situação equitativamente dolorosa com o tema em discussão.

Ouvia-se portanto em uníssono, o lamentar de um povo, angustiado com o sofrimento de um casal, que passeava na praia de mão dada, arrastando um urso de peluche, que alegadamente, seria o brinquedo favorito da miúda.

@Se há algo em que o Português é bom, é em raramente ou nunca, ser enganado.

Não há especialista, génio, professor doutor ou vá-se lá saber quem, que tenha uma abrangência de conhecimentos, com a firmeza e convicção de um Português.
Não necessitamos de ADN’s nem de investigação. Melhor ainda, não temos suspeitos, temos claros culpados.
- A menina foi raptada e está neste momento num harém em África.
- Toda a gente sabe porque levaram a Maddie. Deve ser algum ricalhaço que necessita de algum rim ou um pulmão.
- Eu cá não tenho dúvidas. As inglesas emancipam-se bastante cedo. Farta de ser totó, partiu prá vida a chavala. Uma vez conheci uma num parque de campismo do Barreiro que …
E a versão mais vulgar …
- Foi raptada por pedófilos. Já a devem ter morto depois de abusarem dela. Os da Casa Pia até tiveram sorte. Coitadinha da menina.


Não há tema, por mais delicado que seja, que o Português não invente anedotas.
Aconteceu com a morte da Diana, com o Tsunami, etc.

@É um cruzar de perna. É uma forma que temos de passar o tempo. É o pedir de café quando não se sabe o que beber.

Aproveitado a “boa forma” do Nuno Gomes, diz-se que a Maddie desmarca-se melhor que o jogador do Benfica, ou numa alusão ao clássico do cinema E.T., compara-se a criança com o extra-terrestre. Qual a semelhança entre ambos? Nenhuma. E.T. Goes Home.

Bom.
Mudam-se os tempos … mudam-se os cenários.
@Mas o Português não muda.

A comunicação social, brinda-nos diariamente com pérolas.
Estive a admirar o apresentador do Noticiário da Uma na RTP.
A forma grave como o indivíduo afirmou, que foi adiada a estreia de um filme, que fala de um caso de uma garota desaparecida.
De olhos esbugalhados, faltou-lhe o dedo em riste, diz que o mais estranho, é que a película foi rodada antes dos acontecimentos na praia da Luz.
Mas há mais.
A actriz que interpreta o papel de Mãe, é loira e, a cereja em cima do bolo, … a pequena que faz de criança desaparecida, chama-se na vida real Madeleine.

Imaginem o típico Lar nacional à hora das notícias:

A mãe, a desfrutar da sua dieta com uma salada encharcada em azeite depois de 7 tirinhas de entremeada, o pai orgulhoso com a rapidez que o filho mais velho sugou uma mini, a filha a treinar no Karaoke um dos temas do Mickael Carreira e a sogra, de chinelos gastos e unhas encravadas, apressada a arrumar a loiça, porque ainda tem que rezar 9 terços.

Podia ter sido o pânico em muitos lares de Portugal. Aqui está o tipo de notícias que torna o Português anormal e caso raro.

Depois há a indecisão dos investigadores.
@Claro que esta indecisão nunca faz tremer a convicção de um Português.
Somos certeiros nas análises.
Mais. Somos visionários.

Com as recentes reviravoltas neste caso, porque só a PJ é que andou enganada este tempo todo, vê-se o Português no seu Best of.

“Afinal os pais podem estar envolvidos no desaparecimento da pequena Maddie”

- Eu sempre disse. Aquela gaja a mim não me engana
- O que é que eu te tinha dito Carlos Alberto? Eu vi logo. Eu devia ter sido da judiciária.
- Tanto tempo perdido com investigações. Perguntavam-me que eu dizia logo quem foi.
- Essa cabra! Foi logo das primeiras coisas que pensei. E ele é igual.

@Aguarde-se por outras tomadas de posição.


Esta forma tão tipicamente nacional, de na vida estar bem com Deus e com o Diabo, torna-nos previsíveis e sem sabor.
Ainda bem que temos o Scolari para nos educar.
Porque só lá vamos ao murro.

1 Comentários:

Blogger Lua disse...

Com este post podia meter a Selecção de Rugby Portuguesa a cantar o hino com aquele patriotismo todo no mundial. De fundo ficava bem...Foi uma coisa que me impressionou.. não estou nada habituada...

10:12 da tarde  

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