22/11/08

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.


Eugénio de Andrade



Estava a ler Eugénio, tantas vezes ele e consigo parar o tempo cada vez que leio estas palavras.
Os dias empilhados que me fazem a vida, olho para trás pelo ombro e reparo no que nos tornámos. De quantas vezes passamos pelas coisas sem as ver e do pouco valor que ainda vamos dando a tanto.
Preferia a meninice quando estremecia se me pediam amor. Preferia o tempo em que a minha mão parecia maior e agarrava todos, junto a mim, como se fosse para sempre.
Agora, vamos ficando sem sabor. Pontapeamos os sonhos que ontem jurávamos concretizar e já não nos abraçamos. Diz-me o grito do silêncio, naquelas noites de sol, tantas noites, que vamos saber contar cada minuto que foi perdido. Nessa altura, não passaremos pelas coisas sem as ver, mas vamos estremecer, pelas coisas que não quisemos ver.

2 Comentários:

Blogger @ disse...

Por vezes, sinto a necessidade de alertar todos para isto.

Por vezes, sinto vontade de mostrar isto a alguns.

11:49 da manhã  
Blogger Feel disse...

As tuas palavras tatuaram-me nos olhos uma chuva miudinha.

11:50 da tarde  

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