17/06/05

O Homem que criou raízes

Eu queria ver o mar. Nada me movia mais desde miúdo do que ver o mar. Era o meu sonho de um dia, o meu propósito de vida. Mas, por circunstâncias da vida, nasci bem longe dele e passei muitos anos a imaginar aquela imensidão azul até perder de vista, o tom dourado do Sol no horizonte ao tocar o oceano.

Os anos passaram... a inocência da juventude deu lugar a dureza da vida adulta e esta cedeu às rugas de quem já caminha para a velhice. Fartei-me de esperar e de viver na ignorância e decidi recuperar o meu sonho de menino. Uma manhã, peguei na minha trouxa e nos meus melhores sapatos de caminhada e fiz-me ao caminho. Sabia que era longo, sabia que iria ser precisa muita paciência, mas parti. Para cumprir o meu sonho de ser feliz, de me perder no infinito da maresia.

Quantos dias de viagem passaram, não sei... mas foram os suficientes para reflectir na minha viagem, no meu propósito. Um dia cheguei a uma encruzilhada no caminho... ao longe quase conseguia já avistar o azul do mar, quase conseguia sentir o seu cheiro... mas não bastava, queria chegar mais perto. Mas ponderei. E se o mar não for afinal mais do que um monte de água salgada, agitando-se monotonamente sem cessar? Se as suas águas em vez de puras e cristalinas estivessem poluídas com o trabalho do Homem... valerá a pena fazer o resto do caminho? Não seria melhor poupar-me a uma desilusão tamanha e voltar para o conforto do meu lar?

Subitamente dei por mim incapaz de tomar o próximo passo e fiquei ali, à beira da estrada, sem saber o que fazer. Preso ao receio da desilusão de um sonho que há tanto eu tinha, mas que agora, ali tão perto, parecia ter perdido a magia que um dia me encantou em criança. O meu corpo tornou-se rígido de dúvida e não mais me movi... nem para trás, nem para frente, nem decidindo nem desistindo. Criei raízes naquele local intemporal de confusão.

Nunca cheguei a ver o mar. Hoje em dia já só o visito em pensamento, preso àquele local pela âncora do remorso. Nunca saberei se o seu aroma me faria sonhar ou bradar aos céus em descontentamento... nunca saberei se o seu azul era o de um céu limpo e cristalino ou de um qualquer despejo fétido... Em suma, nunca saberei... e quem passar por mim naquele local, verá apenas uma sombra presa às amarras do passado por não ter forças de acreditar...

P.S. - O Sonho Comanda a Vida!

3 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Gostei ... gostei :)

@

3:05 da tarde  
Blogger PePtiDaSe disse...

Muito bom, como sempre =) *

6:08 da tarde  
Blogger Aleisa disse...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

6:11 da tarde  

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