16/08/05

Ficção I

Inspiro o ar fétido do meu quarto... tento abrir os olhos mas sou vencido por uma lacinante dor na nuca, sem dúvida efeitos da noite anterior... não me consigo levantar e volto a afundar a cabeça na almofada, ainda de olhos fechados. Nova tentativa. A custo, lá consigo olhar para o mostrador digital do despertador... dez horas? "- Raios... voltei a adormecer..."

Volto-me para o outro lado, tentando ganhar forças para me levantar a tempo de chegar ao emprego antes da hora de almoço. Vai ser a segunda vez nos últimos quinze dias que me atraso barbaramente... Só espero não receber o ordenado deste mês como sendo o último. Dou uma rápida vista de olhos à mesinha de cabeceira... o cinzeiro está a transbordar, a garrafa de whisky velho está vazia, mas o copo ainda tem um resto... que se lixe. Bebo o que falta de um trago... uma boa maneira de começar o dia.

Dez e meia. Finalmente levanto-me da cama e arrasto a minha carcaça dorida para a casa de banho. Pareço um cadáver. Tenho que me despachar, não há tempo para fazer a barba... visto à pressa uma qualquer camisa, já que todas me parecem iguais, e as mesmas calças amarrotadas da última semana. Gravata... não... tenho a visão demasiado turva para fazer o nó... pego na velha gabardine castanha e saio à rua em jejum. Não pára de chover há quase cinco dias... adoro este tempo. Faz-me sentir cinzento, soturno... sinto-me bem assim.

Dou uma corrida atabalhoada até à paragem de autocarro, chapinhando pelo passeio inundado. Ignoro alguns impropérios que uma senhora de idade me atira quando lhe encharco a saia. Temos pena. Por sorte (ao menos que algo corra bem hoje), chego mesmo a tempo ao autocarro... puxo de um cigarro e espero pacientemente pela saída...

"- É a segunda vez, Rafael."
"- Eu sei, sr. Marques. Deixei-me dormir de novo... não volta a acontecer."
"- A mim preocupa-me mais o teu bafo a álcool. Há algo que me queiras contar?"

Feliciano Marques. O editor-chefe do Diário Nacional armado em figura paternal. Mas quando quer, sabe ser um bom filho da puta. Não lhe vou dizer nada, claro, não tem nada a ver com a minha vida. Mas acho que não me vai despedir. Ainda.

"- Não, sr. Marques... é só uma fase. Isto passa."
"- Então vai trabalhar um pouco. Ainda são onze e um quarto... e pelo amor de Deus, aproveita a hora de almoço para fazer a barba, estás miserável."

Murmuro qualquer coisa menos própria e saio da sala do editor. Olá secretária. Desarrumada como sempre... Sento-me em frente ao computador a fazer o layout das minhas fotos de quarta-feira. Preciso de um café... rápido. Dirijo-me à máquina mais próxima e encosto-me a ela, à espera do líquido divinal... entretanto vou ouvindo a conversa dos meus colegas de redacção que também vieram à busca de algo que os espevite. Típico. O Raúl anda a comer não sei quem... e gaba-se de já ir na terceira este mês. Que futilidades. Pego no meu copo de plástico com o café e vou-o sorvendo de volta à minha secretária.

O tempo passa... tédio. Uma da tarde. Hora de almoço... para variar com o Marco, na tasca ali ao lado. O Marco é um sujeito engraçado. Conheço-o há varios anos... e começou por ser um tipinho irritante. Com o tempo, acabei por gostar da maneira de ser dele. Está sempre a confrontar-me comigo próprio, com as asneiras que faço, de uma forma bastante pungente. Mas é saudável, acaba por ser bastante introspectivo estar com ele. Hoje, já sei que vai pegar comigo pelo meu aspecto. É inevitável.

"- Ei! Rafael! Jesus, pareces um zombie, rapaz! Que se passa?"
"- Coisas da vida. Hoje não me apeteceu fazer a barba..."
"- E pelos vistos o pequeno almoço foi pesadinho, ein? Porra, meu... Pareces um trapo. Conta-me lá..."
"- Não há grande coisa para contar, Marco. A sério."

Puxo de um cigarro enquanto o Marco fica visivelmente agastado.

"- Foda-se. Andas outra vez numa fase deprimente por causa da outra gaja? Já lá vai quase um ano, rapaz... já era altura de seguires com a tua vida. E também podias deixar essa merda, qualquer dia morres com um cancro qualquer."
"- Todos temos de morrer de alguma coisa, não é."
"- Por essa ordem de ideias tínhamos os putos todos a cometerem suicídio em massa..."
"- Não sejas idiota."
"- O que vais pedir?"
"- Prego no prato..."
"- Dois pregos, faça favor! Rafael... tu ouve o que te digo. O que lá vai, lá vai... a gaja agora é feliz com outro... mentaliza-te disso e segue a tua vida!"
"- É fácil falar, mas não foste tu que fizeste asneira... que deixaste algo que tinhas seguro e com o qual até te sentias bem por um... momento de fraqueza qualquer."
"- Ai a Clara foi um momento de fraqueza? Eu só te ouvia dizer que a amavas e que tinhas deixado a Isabel por causa dela..."
"- Pá... pensava que sim. Fiz asneira... Acontece."
"- E aconteceu ficares sozinho uns meses depois... a Clara não era flor que se cheire."
"- É uma puta. Tanta jura de amor, de repente fica fria como um cubo de gelo, acabamos, e no fim de semana a seguir já anda a comer outro."
"- As mulheres são assim, precisam de umas quecas para lhes levantarem o ego. E ainda falam de nós..."
"- Acredita nisso... Marco... eu não entendo, como pude ser tão estúpido. Com a Isabel sentia-me no topo do Mundo... podia não ser tão arrebatador como... antes, mas... sentia-me bem, sabes? Não precisávamos de conversas inteligentes nem de passar as noites inteiras a fazer amor... Havia uma cumplicidade..."
"- E achaste por bem trocar isso por algo que te parecia melhor."
"- Achei... quantas vezes aquilo que queremos para a nossa vida acaba por se transformar numa enorme desilusão? Bem que me avisaram..."
"- Mas não deste ouvidos, pois não? Quiseste fazer as coisas só à tua maneira e depois acabaste por perder tudo..."
"- O que lá vai, lá vai. Mas, porra... ainda gosto dela. Tanto."
"- Que é feito da Isabel, afinal?"
"- Da última vez que falei com ela, estava a caminho de Barcelona... ia fazer uma exposição num museu qualquer... as pinturas dela estão a fazer sucesso. E pensar que tudo começou com umas coisas em photoshop que ela pôs online..."
"- É, quem diria... o namoradinho dela também foi?"
"- Não, ele ficou cá."
"- Podias ir a Barcelona, pedir ao teu chefe que te mandasse numa reportagem qualquer lá."
"- Esta semana estou tapado... ando a cobrir as eleições autárquicas. Vou ficar até Sexta a viajar para cá e para lá pelo centro do País..."
"- Vida lixada. Quando é que ela volta?"
"- Não sei... acho que ia demorar uns quinze dias..."

Acabo o meu quarto cigarro e o almoço.

"- Quando ela voltar, talvez fale com ela... tomar um café, sei lá. Logo se vê."
"- E se ela aceitar?"
"- Logo se vê."
"- E a Carla?"
"- Quero que ela se foda. Já deve ter rodado metade de Braga por esta altura..."

O Marco ri-se da minha saída, mas eu não consigo rir. Acho que no fundo, no fundo também gosto da Carla, apesar de ela me magoar uma e outra vez, a cada encontro. Foi a minha primeira paixão... e de algum modo acho que vamos estar sempre ligados. Vai ser sempre uma sombra no meu amor pela Isabel... amor esse que deitei fora. Não há dia que não amaldiçoe a minha estupidez...

"- Bem, vou trabalhar. Tenho que estar às três e meia em Penacova... comício não sei de quem."
"- Fazes bem... epá, e tem cuidado... isso da bebida e do tabaco... dás cabo de ti. Ninguém vale o que estás a fazer a ti mesmo..."
"- É... logo largo os vícios."
"- Dizes o mesmo há três meses... bem... até depois. Cuidado com as poças."
"- Até."

Subo a gola da gabardine e puxo do último cigarro do maço. Ainda bem que não parou de chover.

Continua...

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