17/08/05

Ficção II

Sábado.

Estou farto de políticos até aos olhos. Tanta gritaria, tanto bailarico, tanta multidão em festa... perdão, "festa" e depois ficamos todos na mesma. A mesma incapacidade, a mesma inconsistência, a mesma porcaria de sempre. De quatro em quatro anos, o mesmo circo. E lá ando eu, qual cãozinho atrás do dono... de terra em terra a cobrir os arraiais. Pelo menos sou bem pago por estas fotografias... e pelos quilómetros que faço.

É Sábado. São quatro da tarde e sou a única pessoa na redacção a esta hora. Sábado... deve estar toda a gente enfiada nos shoppings onde pelo menos não chove, e eu aqui, às voltas com o photoshop. E sem tabaco. E sem trocos. Podia o meu dia ficar pior?

Telemóvel. Carla? Penso duas vezes antes de atender...

"- Estou sim?"
"- Olá Rafael. É a Carla."
"- Sim, o telemóvel fez questão de afirmar isso mesmo... o que queres?"
"- Estúpido. Tu e o teu sentido de humor distorcido. Não mudaste nadinha."
"- Obrigado. Afinal, ligaste-me para quê? Já não falamos há meio ano..."
"- Para saber como estavas."
"- Bem."
"- Óptimo."
"- Então adeus."

Ouve-se um clique e a chamada termina abruptamente. Que coisa estranha. Só me faltava mais esta... os meus fantasmas levantarem-se da campa quando estou no fundo do poço. Preciso mesmo de um cigarro... pego na chave e desço ao rés-do-chão. Ao lado do edifício do jornal, há um pequeno café onde costumo... perdão, costumava, ir comprar o jornal... e sentar-me a ler, de manhãzinha, antes de ir para o emprego. Bons tempos...

Troco dez euros em moedas e aproveito para levar um maço de tabaco para a viagem. Fumo um cigarro ainda antes de chegar ao escritório. Quando chego, vejo que deixei o telemóvel em cima da secretária. Mensagem... Carla, claro.

"Continuas tão estúpido e irónico como sempre. Não sei como pude gostar de ti. Odeio-te."

Levanto ambas as sobrancelhas em sinal de espanto. "- Porreiro para ti.", digo em voz baixa. Não me digno a responder. Já me conseguiu enervar... sinto as mãos a tremer... puxo mais um cigarro e tento concentrar-me no ecrã de computador. O tempo passa. O maço esvazia até que dou o meu trabalho por terminado. Lá fora, parece que parou de chover... e já é noite. Oito horas... fiquei de ir jantar com o Marco e uns amigos nossos... amigos, como quem diz.

Amigos são outra coisa.

Não considero meus amigos quem só vejo de vez em quando e com quem vou tomar uns copos... com quem falo de banalidades desde o tempo ao tamanho das mamas da vizinha do 3º E. Que coisa tão fútil. O que são amigos a sério? Devo ter mesmo muito poucos. O Marco. A Márcia e o noivo dela, o José... muitas horas passei com eles. A Cristina... há algum tempo que não a vejo... quem mais? Do meu passado distante já ninguém resta... e está frio, hoje.

Pego no telemóvel... procuro na agenda "Isabel". Marco... não dá sinal. Ainda deve estar por Espanha, claro...

Olho para cima e vejo as estrelas por entre o fumo do tabaco... "Tenho mesmo saudades tuas, garota..."

"- Rafael! Rapaz, então? Estás atrasado..."
"- É... desculpa lá, Marco.. trabalho até tarde no escritório, hoje... estive a antecipar as fotografias para a edição de segunda."
"- Estás pálido."

Raios partam a percepção deste gajo.

"- Tive uma surpresa hoje à tarde. A Carla ligou-me."
"- Ligou? A sério? O que é que ela queria?"
"- Saber como eu estava. Fui seco com ela e desligou-me o telemóvel na cara. Depois enviou-me uma mensagem a insultar-me... e foi isso."
"- Ahahaha! Fizeste bem... ouve bem o que eu te digo... gajas dessas não valem a pena, só dão problemas."

Eu que o diga...

"- Mas tu sabes que eu e a Carla temos uma história longa... e meia conturbada."
"- É... tipo... andaram quanto tempo? Três anos? Depois disso encontram-se de vez em quando, dão umas, separam-se, etc. ?"
"- Mais ou menos isso."
"- Desculpa perguntar-te isto, mas... alguma vez traíste a Isabel com a Carla? Isto é... antes de resolveres deixar a rapariga de vez?"
"- Não... nunca. Eu nunca traí a Isabel."
"- És um gajo às direitas. Anda, o pessoal está à espera junto do israelita. Queres comer por lá?"
"- Pode ser. Com a fome que estou acho que até comia cão assado."

A noite passa. As conversas são as do costume... Mas a minha cabeça está noutro lugar. Porque voltaste após todo este tempo, Carla? Para me azucrinar? Não chegam já as lágrimas que fizeste rolar em todos os anos que estivemos juntos? Que raiva que tenho de ti... Que vontade de voltar para casa...

Continua...

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